20 de maio de 2013

novelha

cheiro de coisa nova
cara de coisa velha
corpo de gente nova
olhar de gente velha

naquela casa nova
toca uma canção velha
com uma visão nova
muda uma idéia velha

chega com vida nova
sentindo vontade velha
vendo de uma posição nova
um monte de coisa velha


10 de maio de 2013

o vento nosso de cada outono nos dai hoje

E então, quando a paz comigo mesma parecia inalcançável, ligeiramente saí.
Saí.
Tropeçando nos afazeres deixados de lado - por conta do momento de desespero estabanado,
catando cavaco pelo meio-fio ainda revirado,
por vezes ajeitando o cachecol e o meu cabelo desarrumado.
Saí em direção ao compromisso mais-que-indesejado,
tentando deixar (mas não muito) a guerra interna de lado.

E foi nesse corre-corre de meio-outono que me veio
a vida
de volta:

O vento
que bate
no rosto,
que demarca
meus traços
e puxa p'ra trás
meus cachos.
O vento
que bate
gelado
e que, mesmo
calado,
me desfaz os laços.

Sorrio.
Suspiro.
Sinto-me em paz.

Buzina - acordo.
Corro.
Chego.
Em paz.


4 de maio de 2013

espero lá fora

no samba,
na rua,
no riso,
na praia,
na festa,
no cinema,
na trilha,
no céu estrelado -
penso em você,
quero você,
sonho você.

e você?
embrulhado,
entocado,
amargado,
embaralhado,
enfurnado,
esquecendo-se de viver
fora dessa cápsula
que mais lhe prende do que afaga.
que mais lhe esconde do que repara.
que mais me perde do que ampara.

fique aí. fique bem, esteja pronto pra sair também.
eu espero lá fora.
mas vê se não demora.

1 de maio de 2013

aqui

a comida não engolida
o beijo que ficou no ar
o e-mail não respondido
a espera do que não vai chegar

a gente roda, roda, roda
sem saber como parar.
porque sou um carro velho -
tá arriscado não querer ligar

volto, cuspo a comida,
tomo de volta o beijo,
ignoro a conta de e-mail,
tomo outro caminho pra lá.

lá eu chego
lá eu olho
lá eu vejo
lá eu choro
lá me beijo
lá sou meu próprio colo